segunda-feira, 26 de março de 2012

Resenha: A cor que caiu do espaço, de Lovecraft.

Há pouco terminei uma nova história que pretendo lhe enviar na minha próxima correspondência. Ela tem lampejos quase poéticos, embora seja em boa parte realista, com uma ambientação prosaica ‘a oeste de Arkham’. Algo cai do céu e o terror se instaura. Tudo é narrado por um velho quarenta anos depois; e o título é ‘A Cor que Caiu do Espaço’.

Assim estava notificada a conclusão do conto, em 26 de março de 1927, em uma correspondência de H. P. Lovecraft.

“A cor que caiu do espaço” era considerada pelo próprio autor, história sem concisão e sem clímax. E assim o é, a narrativa segue do início até o final sem termos sabido onde foi o ponto máximo. Mas não é por isso que deixa de ser interessante, e muito menos, deixa de ser valiosa. A história foi um marco na transição de Lovecraft à ficção científica, cheia de experimentalismos e surreal.

Particularmente, sou admiradora da mente febril de Lovecraft, no que tange sua capacidade de mexer com o sobrenatural de forma majestosa. A história nos prende até o final, eu sempre fico com a respiração suspensa e ávida pelo que vem adiante. Bem, é a história sobre uma “cor”, que ninguém soube descrever com palavras ou sentimentos humanos, que chegou junto com um suposto meteoro, ninguém sabe da onde, de matéria desconhecida. A cor era como uma fumaça que avançava sobre o local, aos poucos dominando a vida que ali existia. Sua “névoa” envolvia os corpos, e a cor transformava tudo o que era vivo em coisas sobrenaturais, em corpos cinzentos e frágeis, ou conferindo cores inumanas aos rostos já moribundos afetados pela terrível ameaça; arrastava-se para o fundo do poço com os corpos mortos e se desmanchando, contaminava as águas, e ia tomando conta, lentamente, de cada pedaço da mórbida terra, transformando tudo com seu terrível espectro. 

Bem, esse seria o “miolo” da história, e embora não haja grandes novidades sobre a origem ou a definição da cor, a narrativa não deixa nada a desejar, rica em detalhes e descrições, como é comum em Lovecraft, e ele utiliza-se se um jogo de palavras para tentar definir a indecifrável "cor", que não é feita de matéria alguma. Além do uso do "extraterrestre" fora do que estamos acostumados: seus aliens não são bichinhos verdes com cabeça grande, mas têm formas indefiníveis e indefinidas, e por isso, ao nos jogar para fora do senso comum, somos apanhados na sua rede de fantasia. No final chegamos com aquela sensação de que tudo se passou ali do nosso lado, numa cidade vizinha...

O livro ainda conta com Apêndices, que complementam muito bem a leitura, incluindo a maior carta autobiográfica deixada pelo transtornado autor, e um artigo, em que ataca o gênero literário inundado pelos escritores de baixo escalão, e onde apresenta suas teorias e maneiras de como fazer a boa literatura de terror, sem cair no senso comum e na leviandade.

Como eu senti bastante dificuldade em fazer essa breve resenha, já faz tempo que li, e as palavras estão me fugindo e etc, fica um trecho:

Toda a fazenda refulgia com a horrenda mistura de cores desconhecidas; as árvores, as construções, e até mesmo a grama e as ervas que pouco tempo atrás não haviam sofrido a mutação para o cinza quebradiço e letal. todos os galhos se erguiam em direção ao céu,colmados por línguas de um fogo maldito, e rastros luminosos daquelas chamas monstruosas arrastavam-se em direção às cumeeiras da casa, do celeiro e dos galpões. Era uma cena digna das visões de Fuseli, e por todo o cenário reinava aquele caos de luminescência amorfa, aquele arco-íris extraterreno e adimensional de veneno críptico emanado do poço - pulsando, palpitando, escoando, avançando, cintilando, escorrendo e borbulhando na malignidade suprema de um cromatismo sideral irreconhecível.


Editora: Hedra
Ano: 2011
Tradutor: Guilherme da Silva Braga
Páginas: 102
$: paguei 20,00 pilas

Um comentário:

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